O preocupante estado de saúde da população dos países desenvolvidos foi um dos principais motivos da importante intensificação das pesquisas fundamentais sobre a microbiota desses últimos vinte anos.

Recentes descobertas mudaram profundamente a nossa compreensão da fisiopatologia humana. Elas permitiram profunda tomada de consciência da parte dos profissionais da saúde sobre a importância da preservação ou da recuperação do equilíbrio deste ecossistema, das suas múltiplas implicações relativas à nossa saúde e até nossos comportamentos. Em síntese, temos hoje embasamentos suficientes para qualificar o microbiota de “ÓRGÃO” INTEGRADOR.

No entanto, a seguinte pergunta permanece inteira:

COMO MODULAR FISIOLOGICAMENTE O PERFIL BACTERIANO DA MICROBIOTA, RESTABELECER A IMUNIDADE DIGESTIVA E A TOLERÂNCIA ORAL?

Apresentaremos nesta apostila uma COMPREENSÃO MAIS AMPLA DA DISBIOSE, SEU DIAGNÓSTICO CIENTÍFICO DIFERENCIAL, PRECISO E NÃO INVASIVO, QUALIFICAREMOS diversos tipos de FERMENTAÇÕES ANORMAIS, provocadas por PULULAMENTOS BACTERIANOS ANORMAIS, LOCALIZADOS EM VÁRIOS SEGUIMENTOS DO TRATO DIGESTIVO, incluindo seus RESPECTIVOS TRATAMENTOS baseados numa tri terapia.

Sugerimos uma abordagem lógica, sintética porém relevante da FISIOPATOLOGIA DA MICROBIOTA, baseada em conhecimentos atualizados sobre o mesmo. AS ESTRATÉGIAS E MEIOS TERAPÊUTICOS SUGERIDOS SE DESTACARAM EM FUNÇÃO DE DIAGNÓSTICOS DE VANGUARDA E EM CONCORDÂNCIA COM AS REAIS NECESSIDADES DA MOCRIBIOTA E DO SEU HOSPEDEIRO.

A microbiota intestinal e seu hospede são um exemplo de mutualismo, que é uma cooperação entre diferentes tipos de organismos onde há vantagens para ambos os lados, diferente da simbiose ou do comensalismo. A microbiota apresenta até a capacidade de regular a expressão de certos gênios do seu hospede, o que caracteriza uma relação simbiótica avançada¹¯².

  1. Dethlefsen L, Eckburg PB, Bik EM, Relman DA. « Assembly of the human intestinal microbiota » Trends Ecol Evol. 21, 517–523 (2006) PMID 16820245.
  2. Larsson, E. et al. « Analysis of gut microbial regulation of host gene expression along the length of the gut and regulation of gut microbial ecology through MyD88 » Gut 61, 1124–31 (2012) PMID 22115825 [archive] DOI:10.1136/gutjnl-2011-301104.
  3. INTRODUÇÃO

 

O que aconteceu no nosso prato durante esses últimos 80 anos?

 

A redução do consumo das fibras, o aumento dramático do consumo de açúcares, gorduras hidrogenadas e aditivos alimentares, o consumo de medicamentos irritantes para o tubo digestivo (aspirina, AINS, antibióticos …).

De outro lado, a luta contra bactérias (de tipo “tudo asséptico”) em nosso meio ambiente individual (casa, espaço profissional, alimentação) contribui à empobrecer a composição bacteriana da nossa microbiota, afetando assim a sua estabilidade.

Ainda desconhecido do grande público, o desequilíbrio do ecossistema intestinal (disbiose) atinge portanto uma faixa enorme da população.

A piora da qualidade de vida gerada pela “pandemia” de alergias alimentares, as prisão de ventre crónicas e fermentações intestinais anormais, as má absorções, a degenerescência das mucosas digestivas e disfunções imunitários, as inflamações crônicas e sistémicas, as doenças degenerativas, fadigas crónicas, o crescimento desenfreado do sobrepeso, distúrbios cognitivos e alterações comportamentais, até comprometimento social são testemunhos disso.

1.1 PRIMEIRAS TENTATIVAS DE NORMALIZAÇÃO DA MICROBIOTA

Em 1907 o imunologista russo, Ilya Metchnikoff, prêmio Nobel de medicina em 1908, relacionado ao suas pesquisas sobre a imunidade, e colaborador de L. Pasteur, foi o primeiro a sugerir que as defesas do organismo podiam ser reforçadas pela absorção de bactérias fermentescíveis.

Ele sugeriu que a “auto intoxicação intestinal” e o consequente envelhecimento poderiam ser eliminados modificando a flora microbiana intestinal, substituindo as bactérias proteolíticas produtores de substâncias tóxicas (fenóis, índoles, amônios) a partir de proteínas alimentares, por meio de “micróbios úteis”.

Ele concebeu um regime a base de leite, fermentado por uma bactéria que ele batizou de “Bacilo búlgaro”.

Em 1917, Alfred Nissle isolou uma cepa não patógena de Escherichia coli, a partir das fezes de um soldado da primeira guerra mundial, que não desenvolveu disenteria no decorrer de uma epidemia de shigellose. O conceito de tratamento de doenças intestinais graves por cepas vivas, não patógenas já existiam nesta época.

Um bifidobacterium chamado Bacillus bifidus communis, foi isolado por Henry Tissier (Instituto Pasteur), a partir de uma criança amamentada. Sua hipótese era que está bifidobactéria poderia substituir a bactéria proteolítica causando diarreias infantis.

O termo “probiótico” foi introduzido pela primeira vez em 1965 por Lilly e Stillwell, em oposição ao conceito antibiótico.

Nesses últimos vinte anos, trabalhos de pesquisas sobre bactérias lácticas também se multiplicaram, devido ao desenvolvimento do mercado alimentício (iogurtes e outros laticínios e produtos suplementados em lactobacilos). Os mais utilizados são: Lactobacilos acidophilus, bulgaricus, rhamnosus, lactis, Bifidobactérias lactis, B. bifidum, Enterococcus faecium, Saccharomyces boulardii, entre outros.

Seus efeitos objetivados IN VITRO são principalmente:

  1. Inibição das toxinas bacterianas
  2. Aumento do efeito barreira (repartição das mucinas do epitelial intestinal)
  3. Estímulo da imunidade natural e específica

IN VIVO, observamos uma redução das diarreias infecciosas e motores (distúrbios cólicos, diarreias do viajante, do recém-nascido e das diarreias geradas pelo consumo de antibióticos).

Observamos também algumas respostas positivas na prevenção das recaídas das doenças inflamatórias intestinais crónicas (RCH e Crohn), eczema atópico e alergias alimentares.

Os lactobacilos, de modo geral facilitam a digestão da lactose ou transforme a caseína do leite, tornando-a menos alergisante como o faz o Lactobacilo rhamnosus.

O conceito probiótico foi desenvolvido há mais de 100 anos. Até o momento, o seu modo de ação foi parcialmente elucidado, portanto vários mecanismos ligados à produção de ácidos poderiam explicar seus efeitos benéficos.

Os probióticos de reposição produzidos em laboratórios, são diferentes de aqueles hospedados em nosso ecossistema intestinal. No entanto, os probióticos de reposição (colocados em cápsulas gastro resistentes) também agem sobre nossa flora pela geração de um meio levemente ácido / reduzido (ácido láctico); meio benéfico para a flora residente e transitória presente na microbiota. Consequentemente, a “flora do bem” aumenta, melhorando assim seu controle sobre patógenos, criando uma vantagem competitiva sobre as patógenas pela ocupação dos sites de aderência pela flora saprófito do hospede.

Estima-se que 70% das bactérias que compõem a microbiota humana não sejam cultiváveis por meio das técnicas atuais. Estando em anaeróbia estrita, elas têm exigências desconhecidas em termo de condição de cultura.

Devido o estado das pesquisas atuais, ainda é especulativo considerar que probióticos de reposição poderia aderir à mucosa intestinal. Nas análises das fezes do paciente, não são encontrados! Por outro lado ressaltamos que a destruição da cápsula bacteriana é responsável por uma estimulação da imunidade do hóspede.

A nossa proposta não é de estar em favor ou contra os probióticos! Simplesmente consideramos como sendo fundamental; entender antes de agir fisiologicamente num complexo e frágil ecossistema, fechando um diagnóstico preciso e completo da disbiose, incluindo suas consequências diretas e indiretas sobre o quadro clínico do paciente.

Concluímos que os probióticos mostram-se muitos uteis em certos tratamentos citados acima, como também nos casos de graves degradações do ecossistema, com importantes empobrecimento da diversidade das cepas microbianas (infecção a clostridium difficile por exemplo!).

Além disso, permanecem importantes dúvidas, as mais importantes são:

  1. Como agem os probióticos ingeridos em caso de SIBO (Small Intestine Bacterial Overgrowth), onde já encontra-se uma proliferação

bacteriana excessiva, ou um perfil bacteriano de tipo cólico, gerando assim fermentações anormais e má absorções?

  1. Qual seriam os benefícios ou inconvenientes da ingestão de probióticos frente a uma estase gástrica? (A mais prejudicial das disbioses)
  2. Qual é a influência dos lactobacilos em relação ao desequilíbrio entre firmicutes / bacteriodetes evidenciados no perfis da microbiota em obesos?

 

  1. RELAÇÃO MICROBIOTA / OBESIDADE

FIRMICUTES

BACTERIODETES

Este filo possui uma parede celular gram +, ele divide-se em três classes:

1) Bacilli – aeróbios facultativos ou obrigatórios

2) Clostridia – organismos anaeróbios

3) Mollicutes – apresentam ausência da parede celular

Porém, as de maior interesse são as da classe dos Bacilli, em particular os LACTOBACILLUS, constituídos por 123 espécias, e os Enterococcus, (Trabulsi; Sampaio, 2008; Tortora; Funke; Case, 2006).

As bacteriodetes são divididas em três principais classes: Bacteroides – Flavobacterias – Sphingobacterias. As bacteroides (gram-, anaeróbias), são habitantes normais do trato digestivo.

Desta classe pertence o filo Actinobacterias, dentro da qual encontramos o gênero BIFIDOBACTERIUM, (gram+), anaeróbia estrita, constituído por 58 espécies…

As BIFIDOBACTERIAS represente o maior grupo de bactérias que compõe a microbiota do cólon.

Tennyson e Friedman (2008) evidenciam que a proporção Firmicutes / Bacteriodetes desempenha um importante papel na obesidade, relacionado à homeostase energética do organismo, além de afetar o sistema imune e a resposta inflamatória.

No entanto, ainda não foi demonstrado de forma inequívoca se estas diferenças são causa ou consequência da obesidade.

  1. O DESENVOLVIMENTO DA MICROBIOTA

3.1. FORMAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA MICROBIOTA INTESTINAL

 

Bebês que nascem através de parto normal começam, na maioria das vezes, a adquirir bactérias durante o parto, enquanto bebês que nascem por cesariana são colonizados inicialmente pelas bactérias peri – operatórias e do ambiente hospitalar. Isto pode afetar o desenvolvimento da microflora intestinal, pois as primeiras bactérias que colonizam o trato digestivas vão inevitavelmente competir com as seguintes a vir. Ou seja, mesmo se as bactérias encontradas no decorrer do parto por cesariana podem não ser patógenas, elas não são bactérias que precisaremos encontrar ao nascer, lembrando que a microbiota e suas interações com o sistema imune têm papel central no processo de desenvolvimento da tolerância oral.

A flora intestinal materna, o aleitamento e as condições de higiene são outros fatores importantes que interfere no processo de colonização do trato digestivo do lactente.

A apêndice cecal funciona como uma fábrica de bactérias, cultivando os germes “bons” recebidos nos primeiros anos de vida. Ela reproduz as caraterísticas individuais da microbiota do hospede, além de produzir linfócitos de tipo B, Bill Parker Duke University Medical School[2] e publicado na revista Journal of Theoretical Biology.

Dentre as recomendações preventivas de alergias, se destaca o aleitamento materno exclusivo durante os primeiros meses de vida. Mas o ideal nem sempre é possível! Ensaios clínicos comprovam que a utilização da mistura de galacto-oligossacarídeos (GOS) e fruto-oligossacarídeos (FOS, obtidos de plantas), na relação 9:1 e na quantidade de 0,4 a 0,8g / 100 ml, têm efeito semelhante ao obtido em crianças amamentadas, no desenvolvimento da microbiota.

Durante a amamentação materna, a microflora intestinal do bebê é composta basicamente por bifidobactérias, bactérias lácticas, pouco coliformes e clostrídios.

Quando ocorre a introdução de alimentos sólidos, bacteroides e outras gram negativas começam a predominar. A flora intestinal se estabiliza por volta da idade adulta.

Afinal, a imunidade digestiva, ou mais especificamente a tolerância oral não “nascem” prontas. Pelo contrário, é um processo ativa que é desenvolvido, estimulado e aprendido após nascimento. O recém-nascido nasce com o sistema imune imaturo, por isso suas funções precisam ser adequadamente estimuladas para que tenham um desenvolvimento saudável, Dra Ariana Yang, doutora em Ciências pela USP, Pediatria Moderna Jun 15 V 51 N 6 pág.:203.

A DISBIOSE REPRESENTA SISTEMATICAMENTE UMA ALTERAÇÃO DA IMUNIDADE DIGESTIVA, tendo como origina uma pululação bacteriana patógena, que faz o bolo fecal fermentar demasiadamente!

Trecho extraído da apostila “IMUNOLOGIA DIGESTIVA, MODULAÇÃO DA MICROBIOTA” Dr Jean Marc, março de 2017.